Os mineiros e a ciência

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O Observatório Incite, da UFMG, e a FAPEMIG realizam a primeira enquete de Percepção Pública da C&T de Minas Gerais

 

A UFMG, por meio do Observatório Incite, em parceria com a Fundação de Amparo do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), realizam a primeira pesquisa que mede indicadores da opinião pública sobre ciência e tecnologia. Trata-se de um tipo de pesquisa que, nos EUA e na Europa, é efetuada periodicamente desde as décadas de 1970 e 1980, e considerada importante para avaliar o estado do sistema de C&T no país e o impacto de políticas públicas de divulgação  e educação científica. No Brasil, foi realizada, em nível nacional, apenas em 1987, 2006, 2010 e 2015, e, nos últimos anos, no Estado de São Paulo (pela Fapesp).

 

A metodologia foi inovadora. De um lado, incorporando o estado da arte mundial em tais pesquisas, para produzir perguntas e escalas de respostas bem calibradas e comparáveis internacionalmente. De outro, acrescentando indicadores específicos para o Brasil e MG e variáveis ligadas também ao contexto de vida e aos valores morais e políticos dos entrevistados.

 

A pesquisa foi executada pela empresa Pólis Pesquisa Ltda. A amostra (2000 pessoas entrevistadas em todas as regiões do Estado) representa a população, de 16 anos de idade ou mais, do Estado de Minas Gerais inteiro. O grau de precisão é de 95% de confiança, com um erro amostral de 2% para mais ou para menos.

 

A pesquisa mostrou que as mineiras e os mineiros possuem um interesse bastante elevado em temas científicos e tecnológicos e uma visão substancialmente positiva sobre ciência e tecnologia, embora estejam atentos às implicações éticas e a questões ambientais, políticas, sociais entrelaçadas com o desenvolvimento tecnológico e com a pesquisa científica. Infelizmente, o grau de acesso à informação é ainda baixo, e marcado por grandes desigualdades regionais e sociais.

A seguir, 10 principais resultados da primeira enquete do Estado de Minas Gerais de Percepção Pública da Ciência e da Tecnologia:

 

  1. Cidadãos e cidadãs de Minas Gerais declaram ter interesse por temas científico e tecnológico (C&T, medicina e saúde, meio ambiente): comparável com a média nacional, europeia e dos EUA

  2. Os mineiros também confiam nos cientistas, e atribuem valor e prestígio à profissão de cientista. Também são vistas de forma positivas as instituições que fazem pesquisa científica ou tecnológica em nosso Estado, bem como a qualidade em geral da C&T no Brasil

  3. As atitudes dos mineiros sobre os efeitos, a importância e os benefícios da C&T são também positivas. A maioria da população afirma que C&T trazem “mais benefícios do que malefícios para a humanidade”, ou até mesmo “só benefícios”. Mas não por isso a visão dos mineiros é simplista ou acrítica.

  4. Uma parte consistente da população de MG expressa a opinião de que a ciência e a tecnologia também possuem implicações delicadas e questionáveis do ponto de vista dos efeitos sociais, ambientais, éticos, e se declaram, em sua maioria, favoráveis a um controle social e político da ciência, à formulação de códigos de conduta, ao princípio de precaução, e afirmam também que, nas decisões importantes sobre C&T, a população deveria ser ouvida.

  5. Em particular, os mineiros concordam, em média, que a “C&T vão ajudar a eliminar a pobreza e a fome no mundo”, mas também há muitas pessoas concordando com as afirmativas que “por causa do conhecimento, os cientistas têm poderes que os tornam perigosos” e que “C&T são responsáveis pela maior parte dos problemas ambientais atuais”.

  6. Apesar do interesse que os mineiros demonstram e da visão globalmente positiva, o acesso da população à informação científica e tecnológica é ainda baixo, e marcado por grandes desigualdades. Muito escassa também é a frequentação de espaços ou atividades de difusão cultural, tais como museus, debates ou palestras. O consumo de informação científica nos meios de comunicação é elevado apenas em uma minoria da população.

  7. Como consequência, mesmo entre pessoas com grau de interesse elevado e escolaridade alta, pouquíssimos mineiros conseguem lembrar o nome de alguma instituição que faça pesquisa no Estado de Minas, ou o nome de algum cientista brasileiro. São também poucos os que conhecem a Fapemig.

  8. A maioria dos mineiros aponta que deveria houver maior investimento em pesquisa em medicina, sendo que as pessoas com maior nível de escolaridade apontam também a importância de investimento em energias alternativas, e as com menor nível de escolaridade enfatizam a importância de investir em agricultura.

  9. Por fim, descobrimos que o otimismo, ou o pessimismo, das pessoas sobre os benefícios e os riscos do desenvolvimento técnico e científico não é determinado pelo grau de escolaridade ou pela renda: não necessariamente pessoas com menos anos de estudo terão mais “medo” da ciência. Algumas das atitudes, ao contrário, se tornam mais cautelosas ou críticas entre pessoas de alta escolaridade. A região e o contexto de moradia , o interesse de cada pessoa em C&T e seu consumo de informação, bem como os valores e o posicionamento moral, são fatores mais importantes para forma a opinião das pessoas sobre diversos aspectos da C&T.

  10. Os resultados desta primeira enquete de percepção pública da ciência e tecnologia no Estado de Minas Gerais apontam, de um lado, por uma curiosidade e uma demanda por informação e acesso a atividades de difusão da cultura científica, mas mostram, ao mesmo tempo, a necessidade de uma maior oferta de divulgação científica de qualidade, de um fortalecimento da educação, formal e informal, em ciências, denunciando uma grande diversidade e desigualdade entre as diversas regiões do estado e entre diversos grupos sociais. Muito pode ser feito para que a ciência e a tecnologia façam parte integrante da cultura e das competências dos mineiros, e para que todos os cidadãos, pelo acesso à discussão democrática e à diversidade de saberes sobre meio ambiente, saúde, tecnologia e ciências em geral, possam atuar de forma cada vez mais ampla e profunda, tanto em suas vidas profissionais, como no exercício da cidadania.

 

Equipe de pesquisa:

  • Yurij Castelfranchi & Elaine Vilela (InCiTe – UFMG,  Coordenadores)
  • Ildeu Castro Moreira (UFRJ)
  • Luisa Massarani (Museu da Vida-Fiocruz)
  • Solange Simões (Univ. of Michigan)
  • Vanessa Fagundes (Fapemig)
  • Alunas: Ana Carolina Corrieri, Eloah Costa, Flávia Lacerda (Fafich-UFMG)
  • Coleta de dados efetuada pela Pólis Pesquisa Ltda