Qual é o lugar da ciência?

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Quiz

O professor de Física Marco Aurélio de Jesus viajou cerca de 3600 quilômetros, de Rondônia até a Bahia, para participar da 68ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Eurico Baniwa vem de uma comunidade indígena na fronteira do Brasil com a Colômbia, mas, há sete anos, está no Nordeste e dá aulas no Instituto Federal Baiano (IFBA) e na Universidade Federal da Bahia (UFBA) na área de direito. Amanda Oliveira e Isadora Vitti, alunas do curso de jornalismo da Universidade de São Paulo (USP), apresentaram pôster sobre pesquisa que analisou o discurso de um grande jornal durante as manifestações de 2014.

 

O que esses personagens têm em comum além de terem participado do evento em Porto Seguro? Cada um encontra a ciência em um lugar diferente. Marco Aurélio mostra que a ciência está em cada um dos 80 alunos do Ensino Médico do Instituto Federal de Rondônia (IFRO). “Nós sabemos que as grandes instituições de ciência estão no sudeste, mas nós nunca nos conformamos com a distância. Queremos fazer do IFRO o maior instituto federal do país e, para isso, não dá para fazer papel de vítima, partimos para o trabalho”, defende o professor.

Essa foi a lição que o professor passou para os seus alunos, tanto que, dois deles, foram os primeiros colocados do Quiz promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e, como prêmio, vão participar da Semana de Ciência e Tecnologia desse ano, em Belo Horizonte. Geziel Fiorotte, 17 anos, descobriu a maneira de se manter 30 mil pontos à frente do segundo colocado, seu colega Felipe Henrique Santos, também de 17 anos. “Não basta acertar as respostas do Quiz, é preciso saber o tempo certo de responder quando você não tiver tanta certeza das respostas”, ensina o campeão. Felipe se manteve frequente no jogo para garantir a boa colocação. “Garanti minha vantagem de pontos, mas também apresentei um pôster sobre uma máquina que criei, que converte energia mecânica em elétrica”, conta, animado.

 

Eurico Baniwa saiu de sua tribo aos 15 anos para aprender o português. Fez faculdade de filosofia, de publicidade e propaganda e de direito, e nunca mais parou de aprender. Já trabalhou na área comercial de uma grande empresa em São Paulo, mas a vontade de ir ainda mais longe o fez atuar na área jurídica, prestando orientação à população indígena em relação ao cumprimento de penas alternativas. Na reunião da SBPC, participou como palestrante da SBPC Indígena e da Científica. “Muitas vezes as pessoas achavam curioso um índio ter um cargo de destaque em uma multinacional. Na minha aldeia, meu povo também não entende porque eu saí. Eles ainda me perguntam porque eu estudo tanto. Sempre é possível fazer alguma diferença”, afirma Baniwa.

As ruas foram o lugar onde a ciência apareceu para as estudantes da USP, Amanda e Isadora. Por meio da análise de discurso, elas identificaram quando um texto jornalístico tinha a intenção de deixar as manifestações de 2014 em segundo plano ou quando se queria marginalizar o movimento por meio de termos como black blocs. “Com as nossas pesquisas, identificamos que o jornal deixava a notícia das manifestações em situação secundária quando chamava mais a atenção para a situação do trânsito do que para o real motivo das manifestações”, explica Isadora Vitti.

 

Ciência onipresente

 

Na cerimônia de encerramento da 68ª Reunião, a presidente da SBPC, Helena Nader, destacou o sucesso do evento e agradeceu a acolhida de todos os envolvidos da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). “Sempre deixamos um legado onde realizamos as nossas reuniões. Aqui deixaremos vários, principalmente aqueles relacionados às demandas dos povos indígenas. É uma alegria ver que a nossa reunião fica sempre com o jeito da cidade sede”, afirma. O encontro também serviu para o anúncio oficial da sede da reunião em 2017: a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para o reitor da UFMG, Jaime Ramírez, “É com carinho e riqueza de atividades, de conteúdo, com diversidade de temas e especial atenção à cultura, que nós aceitamos realizar a SBPC após sucesso tão grande só aumenta a nossa responsabilidade”, afirmou, o reitor, por meio de sua fala que mostra, mais uma vez, que o lugar da ciência é em todo lugar.