Estratégia para potencializar efeitos da radioterapia está sendo desenvolvida na UFMG

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O câncer de boca atinge mais de 15 mil brasileiros por ano. Apesar dos recentes avanços no diagnóstico e no tratamento dos tumores de cabeça e pescoço, nas últimas décadas, há poucas evidencias de aumento na sobrevida dos pacientes após cinco anos. Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estão trabalhando há dois anos no projeto Nova estratégia para potencializar os efeitos da radioterapia em tumores de cabeça e pescoço, que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).

Foto: divulgaçãoO objetivo do projeto é investigar uma terapia usando nanopartículas de ouro conjugadas com cetuximab, anticorpo que associado à radiação ionizante, poderia ser capaz de controlar e tratar o crescimento de tumores de cabeça e pescoço com doses menores, o que baratearia o tratamento e diminuiria os efeitos colaterais.

O coordenador do projeto, professor Luiz Orlando Ladeira, da área de nanomateriais da UFMG, acredita que esse trabalho é altamente inovador. “No Brasil, somos o grupo pioneiro no uso de nanotecnologia associada á radioimunoterapia. Geralmente, para ter um efeito razoável no organismo, os danos secundários – devido a intensa radiação – são enormes. Queremos diminuir isso”, afirma o pesquisador.

Sabe-se que para o tratamento de tumor de cabeça e pescoço, a radioterapia já é utilizada. Segundo os pesquisadores envolvidos no projeto, o cetoxinab é um fármaco com ação imunoterapica, usado nos casos onde todas as outras terapias falharam. No entanto, alguns tipos de tumores se tornam extremamente resistentes depois da radioterapia. Na imunoterapia, o anticorpo bloqueia a ação de uma molécula vital para a célula cancerosa, mas alguns tumores estão conseguindo se adaptar a isto e se tornando resistentes, tanto à imunoterapia quanto á radioterapia.

Para compreender esse processo, Luiz Orlando Ladeira explica que o tecido biológico tem entre outras coisas elementos como carbono, oxigênio, nitrogênio. O número atômico – termo usado na física e na química para designar o número de prótons encontrados no núcleo de um átomo – do material que compõe o corpo também afeta as características de absorção da radioterapia. O carbono, oxigênio e nitrogênio tem, por exemplo, o número atômico 6, 8 e 7, respectivamente. Sendo assim, é um material biológico com átomos muito leves que absorvem pouca radiação e interagem pouco, por isso para uma radiação efetiva é necessária uma dose muito elevada que pode causar danos biológicos aos pacientes. Nesse sentido, o ouro tem o número atômico 79. Sendo assim, a intensidade de radiação utilizando as nanopartículas de ouro é cerca de 400 vezes maior, de acordo com Ladeira. Isso aumenta a interação da radiação com o material, aumentando, também, sua absorção durante a radioterapia. Desenho esquemático mostrando uma nanopartícula de ouro, conjugada com um anticorpo se ligando a uma molécula dentro da célula tumoral e a impedindo de proliferar.

A pesquisadora Lídia Maria de Andrade, integrante do projeto, comenta sobre a estratégia de tratamento que está sendo desenvolvida. Os primeiros resultados no laboratório indicam que o uso de um quinto da concentração do imunoterápico ligado nas nanopartículas faz o mesmo efeito, in vitro, de quando se usa o imunoterápico sozinho “Buscamos unir a nanotecnologia para melhorar tanto a resposta à radioterapia quanto à imunoterapia. Os estudos de vários grupos de pesquisa mostram que a radioterapia e a imunoterapia apresentam efeitos colaterais de variadas proporções. No nosso trabalho observamos a aplicação de apenas um quinto da dose. A nanopartícula de ouro facilita o trajeto até o alvo, por isso pode-se usar uma concentração menor”, comenta Lídia.

Atualmente, a pesquisa encontra-se na fase de testes in vitro. “Fazemos modelos de irradiação para células em cultura, tratamos as células cancerígenas com nanopartículas de ouro conjugadas com o imunoterápico, estabelecemos doses e vemos o aumento da eficiência. Nós estamos desenvolvendo o projeto na parte in vitro. Vimos que a estratégia funciona”, diz Lídia.

Para saber mais a respeito desta linha de pesquisa visite o site do grupo de pesquisa envolvido neste projeto.