Tele-esperança!

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Banco de Imagens: USP

 

Pacientes diabéticos, especialmente acima de 60 anos, devem ser submetidos, ao menos, a um exame oftalmológico anual. A razão é o risco de desenvolvimento da retinopatia diabética. Os altos índices de glicose no sangue podem causar lesões microvasculares na retina e desencadear problemas como glaucoma, hemorragia, isquemia e, até mesmo, cegueira.

 A doença, contudo, é tratável – daí a importância da detecção precoce, por meio do exame de retinografia. O exame é, basicamente, uma fotografia colorida da retina. Eis a questão: a oftalmologia é uma das especialidades com maiores filas de espera para pacientes idosos na rede pública. É preciso aguardar meses, ou anos, para conseguir uma consulta. “Às vezes, a pessoa nem tem o pedido porque sabe que não conseguirá, e recorre à rede particular. O problema é que são pacientes carentes”, observa Maria Beatriz Alckmim, uma das coordenadoras do Centro de Telessaúde do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG).

 “Muitos municípios do interior têm que pôr esses pacientes em ambulâncias e levá-los a Belo Horizonte, com altíssimos custos de transporte e de encaminhamento. Além do custo da avaliação oftalmológica, há o tempo perdido: a pessoa precisa sair de casa e se deslocar até um grande centro”, relata Daniel Vitor Vasconcelos Santos, coordenador do serviço de teleoftalmologia do Centro de Telessaúde do HC-UFMG, para quem essa é uma das razões para a baixa adesão ao exame com a regularidade necessária.

Daniel Vitor é autor de um estudo que avalia a viabilidade econômica da aplicação de ferramentas de telessaúde na triagem da retinopatia diabética. Funciona assim: o paciente vai a um centro de referência, onde faz a retinografia. Posteriormente, ela é transmitida, via internet, a um especialista da Rede de Teleassistência de Minas Gerais. Ele faz a avaliação a distância, em até 72 horas. Isso tudo é possível porque o retinógrafo, aparelho usado no exame, não precisa ser operado por um médico. Qualquer profissional de saúde, previamente capacitado, pode fazê-lo.

 Um projeto-piloto foi implantado em dois centros especializados no atendimento de pacientes com diabetes e hipertensão – conhecidos como Hiperdia. Eles funcionam nas cidades de Viçosa e Santo Antônio do Monte, como polos de atendimento regionais. Até setembro de 2016, emitiram-se mais de 1,8 mil laudos de exames em menos de um ano.

Os primeiros resultados parciais do projeto foram apresentados durante o Congresso Internacional de Telemedicina (Med-e-tel), realizado em abril de 2016, em Luxemburgo, na Europa. A avaliação mostrou que o telediagnóstico pode gerar uma economia de até 95%, especialmente, por dispensar os gastos com o transporte do paciente até um grande centro. Em média, o custo da consulta presencial fica em torno de R$ 80, ao passo que o laudo remoto é estimado em R$ 5.

 A grande surpresa dos pesquisadores, no entanto, não foi o suposto impacto econômico. Destaca-se o fato de a teleassistência ser a única alternativa para pacientes que não teriam acesso ao exame. “Ao implantar o projeto, vimos que não seria possível nem comparar. Quase não existia esse encaminhamento e a telemedicina seria a única opção do município. Acreditávamos que existia um fluxo e que iríamos substituí-lo, mas percebemos apenas uma fatia muito pequena estava sendo assistida”, conta Maria Beatriz Alkmim.

Outra constatação foi a de que não faltavam retinógrafos nos centros de referência. Em alguns casos, o aparelho estava disponível, mas inutilizado, sob a alegação de que não havia oftalmologistas nos municípios.Para a coordenadora do Centro de Telessaúde do HC-UFMG, mesmo quando a instituição de saúde conta com o especialista, o telediagnóstico ajuda a otimizar o atendimento. “Naquele tempo precioso, o médico precisa fazer a consulta, e não o exame, que já deve chegar com o paciente. Isso dá agilidade à atividade do especialista”.

 

POLÍTICA PÚBLICA

Daniel Vitor também atenta para a grande demanda do oftalmologista. “Estima-se que 8% a 10% da população acima dos 60 anos terão diabetes mellitus. É muita gente! Mesmo em municípios pequenos, de fato, um ou dois profissionais não conseguem atender”, diz. Ele ainda ressalta que, naturalmente, o indivíduo que consegue fazer essa avaliação pode sair da fila oftalmológica. “Isso, se ele não tiver um sintoma ocular. Ou seja: nada que motive aquela consulta”, completa.

O pesquisador considera que o estudo aponta para outras questões econômicas “menos tangíveis”, embora não tenham sido diretamente avaliadas. Uma delas é o fato de o diagnóstico precoce possibilitar menores gastos para o sistema de saúde. Na fase inicial, o tratamento pode ser feito com laser, a baixo custo. Em estágios mais avançados, aumenta a complexidade das intervenções médicas, que se tornam mais onerosas. Além disso, Daniel Vitor destaca o custo social da doença: “O indivíduo economicamente inativo, por ficar cego numa faixa etária produtiva, tem um custo para a sociedade”.

Uma vez ratificada a viabilidade econômica do uso da telessaúde para a triagem da retinopatia diabética, o próximo passo é implantar o projeto em grande escala. “Com os resultados, pretendemos que isso se transforme numa política pública”, afirma Maria Beatriz Alckmim.

 

TRABALHAR EM REDE

Foto: Divulgação

O Centro de Telessaúde do HC-UFMG foi oficialmente inaugurado em 2005, com apoio da FAPEMIG. No mesmo ano, foi criada a Rede de Teleassistência de Minas Gerais, registrada como uma das redes de pesquisa do Estado, que presta atendimento a mais de 700 municípios. Atualmente, ela reúne as universidades federais de Minas Gerais (UFMG), Uberlândia (UFU), Juiz de Fora (UFJF), São João Del Rei (UFSJ), do Triângulo Mineiro (UFTM) e dos Vales do Jequitinhonha Mucuri (UFVJM), além da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

Desde sua criação, a Rede emitiu mais de 2,8 milhões de laudos de exames. Isso representa uma economia de mais de R$ 149 milhões, gerada pela redução de encaminhamentos. O primeiro a ser implantado foi o eletrocardiograma, que representa quase a totalidade desse número. Até setembro de 2016, realizaram-se 1,8 mil retinografias, 1,6 mil exames de Holter e 276 laudos de Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (M.A.P.A), na área da Cardiologia.

 

Confira aqui o canal do Youtube da Rede.